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Capítulo 4 - Oportunidades no Caos

  • Foto do escritor: Marcus Vinicius SS
    Marcus Vinicius SS
  • 30 de jul. de 2025
  • 18 min de leitura

O ar condicionado da NexusLog zunia seu mantra gelado, um contraponto constante ao burburinho produtivo que eu tanto apreciava. São Paulo, lá fora, pulsava em seu ritmo frenético de negócios e concreto, um ecossistema que eu aprendera a navegar e, modestamente, a dominar. Meu nome é Fábio Carvalho Sousa, 36 anos, filho único, e a NexusLog, minha startup de soluções logísticas e inteligência de dados, era a materialização da minha ambição. Dividia o comando com Ricardo “Rick” Almeida, um gênio da programação com um coração idealista que, por vezes, me tirava do sério, mas cuja lealdade e capacidade técnica eram inegáveis. Nosso escritório, um andar inteiro em um moderno edifício na região da Berrini, refletia nosso sucesso ascendente: design minimalista, tecnologia de ponta e uma equipe jovem e faminta por resultados. Eu morava no Jardim Paulista, um oásis de relativo sossego em meio à selva de pedra, mas meu verdadeiro habitat era ali, entre planilhas, projeções e a caça incessante pela próxima grande oportunidade.


Naquela terça-feira, três dias antes do mundo virar de cabeça para baixo, a Sincronia – nome que só surgiria depois, batizando o cataclismo biológico – era apenas um ruído distante no noticiário internacional. Algumas menções a um estranho fenômeno de mal-estar coletivo entre mulheres em partes remotas da Ásia, algo que os telejornais tratavam com uma mistura de curiosidade e ceticismo, relegado às notas de rodapé entre crises políticas e flutuações do mercado. Para mim, imerso na preparação de uma apresentação crucial para um fundo de investimento que poderia catapultar a NexusLog para outro patamar, aquilo não passava de uma excentricidade global, irrelevante para meus planos meticulosamente traçados.


Rick, por outro lado, parecia mais sintonizado com essas “humanidades”, como eu costumava alfinetar. Lembro-me de encontrá-lo na copa, com o cenho franzido diante de um tablet, lendo alguma matéria sobre o tal fenômeno. 


— Fábio, você viu isso? Parece sério. Estão falando em uma espécie de… sincronização menstrual em massa. Hospitais sobrecarregados em algumas regiões — , comentou ele, com aquela sua típica expressão de quem carrega o peso do mundo nas costas. Dei de ombros. — Rick, meu caro, sempre haverá uma crise em algum canto do planeta. Nosso foco é aqui, agora. Temos um M&A para fechar e tubarões para impressionar. Deixe as catástrofes para a ONU, ok? —  Ele suspirou, mas não insistiu. Sabia que minha pragmática couraça era difícil de transpor.


Os dois dias seguintes transcorreram na velocidade habitual. Reuniões, ajustes na apresentação, teleconferências com potenciais parceiros. A normalidade era tão palpável que quase se podia tocá-la. Lembro-me de um almoço com um contato influente no governo estadual, discutindo possíveis contratos para otimização da logística de transportes públicos. Falamos de cifras, de prazos, de influência. O mundo, para mim, resumia-se a essas variáveis. O resto era paisagem.


E então, a sexta-feira chegou. O Dia Zero, como ficaria conhecido. Acordei com a mesma disposição de sempre, fiz meu treino matinal, li os principais portais de notícias econômicas. Nada fora do comum. No escritório, a atmosfera era de expectativa pela reunião da tarde com os investidores. Tudo corria conforme o planejado. Até que, por volta das dez da manhã, a primeira peça do dominó caiu, bem ali, no nosso microcosmo asséptico.


Ana, nossa gerente de RH, uma mulher geralmente enérgica e assertiva, apareceu na minha sala com o rosto pálido e contorcido de dor. 


— Fábio, eu… eu não estou me sentindo bem. Uma cólica terrível, de repente. Nunca senti nada assim —, ela balbuciou, apoiando-se na porta. Antes que eu pudesse processar, Lúcia, da equipe de marketing, passou mal em sua estação de trabalho. Depois, Mariana, do financeiro. Em questão de uma hora, o caos se instalou. Mais da metade das mulheres da NexusLog reportava sintomas semelhantes: dores abdominais excruciantes, tontura, náuseas, um mal-estar súbito e avassalador. Homens olhavam atônitos, sem entender. Rick correu para ajudar, ligando para serviços de emergência, que já davam sinais de congestionamento.


Minha primeira reação foi de irritação. Justo hoje? Com os investidores a caminho? Mas a dimensão do problema rapidamente se impôs. As notícias começaram a pipocar nos portais, agora em manchetes garrafais. Não era um problema da NexusLog, nem de São Paulo. Era global. Todas as mulheres, em todos os lugares, ao mesmo tempo. A Sincronia. O nome ainda não existia, mas o fato era inegável e brutal.


Os investidores cancelaram, claro. O mundo estava parando. E eu, Fábio Carvalho Sousa, o homem que farejava oportunidades a quilômetros de distância, senti um arrepio diferente. Não era medo. Era… curiosidade. Uma crise dessa magnitude não era apenas uma tragédia. Era um divisor de águas. E em toda grande mudança, há espaço para quem tem visão e agilidade.


Enquanto Rick se desdobrava em um samaritano improvisado, coordenando os primeiros socorros e tentando acalmar os ânimos, minha mente já trabalhava em outra frequência. Logística. Cadeias de suprimentos. Dados. Se todas as mulheres entravam em ciclo ao mesmo tempo, o que isso significaria para a produção de absorventes, analgésicos, produtos de higiene? Para a força de trabalho? Para o consumo? Para o transporte de mercadorias essenciais? As implicações eram gigantescas, apocalípticas para alguns, mas para mim, soavam como um complexo quebra-cabeça cujas peças eu poderia ajudar a reorganizar – cobrando o devido preço, evidentemente.


Chamei Rick para minha sala, no final daquele dia caótico. Ele estava exausto, com a camisa amarrotada e olheiras profundas. 


— Fábio, isso é inacreditável. O sistema de saúde entrou em colapso. Minha irmã está péssima, minha mãe também. É… é bíblico.


— Trágico, sem dúvida —, concedi, com a dose certa de solenidade. — Mas também é um desafio sem precedentes para a logística global, Rick. E é aí que nós entramos. Pense bem: monitoramento em tempo real da demanda por suprimentos específicos, otimização de rotas de distribuição em cenários de crise, análise preditiva de necessidades… Nossa plataforma pode ser adaptada. Podemos oferecer ao governo, às grandes corporações, uma ferramenta essencial para gerenciar o caos. Isso não é apenas um negócio, Rick. É uma necessidade. E nós temos a solução.


Ele me olhou com uma mistura de espanto e… decepção? Eu já conhecia aquele olhar. — Fábio, as pessoas estão sofrendo. Mulheres estão morrendo por falta de atendimento. E você está pensando em… monetizar a crise?


— Estou pensando em solucionar um problema gigantesco, Rick. E soluções têm valor. Alguém precisa manter as engrenagens funcionando, mesmo que aos trancos e barrancos. Ou você prefere o colapso total? Idealismo não enche barriga nem entrega remédio na prateleira da farmácia. Nós temos a expertise. Vamos usá-la. Prepare a equipe. Quero um protótipo de um módulo de ‘Resposta à Sincronia’ para ontem.


Ele balançou a cabeça, mas não discutiu. Sabia que minha determinação era inabalável. No fundo, talvez até concordasse com a lógica fria da minha análise, ainda que seu humanismo protestasse. Enquanto São Paulo mergulhava na primeira noite da Sincronia, com suas sirenes cortando o silêncio tenso e as farmácias sendo saqueadas, eu já rascunhava em meu tablet os primeiros esquemas do que viria a ser a maior e mais controversa oportunidade de negócio da minha vida. O caos podia reinar lá fora, mas na minha mente, a ordem da estratégia começava a se impor.


***


O fim de semana que se seguiu ao Dia Zero foi uma névoa de cafeína, teleconferências urgentes e a sensação palpável de que as regras do jogo haviam sido reescritas em tempo real. São Paulo, normalmente vibrante mesmo aos sábados e domingos, estava estranhamente silenciosa, uma quietude tensa quebrada apenas pelo uivo esporádico de ambulâncias e viaturas policiais. O estado de emergência nacional era agora uma realidade concreta, com restrições de circulação, cancelamento de eventos e um pânico contido que se manifestava em supermercados com prateleiras esvaziadas e farmácias com filas que dobravam quarteirões.


Para mim, no entanto, o silêncio da cidade era preenchido pelo zumbido dos servidores da NexusLog e pela cacofonia de chamadas e e-mails que inundavam meus dispositivos. O caos lá fora era a minha matéria-prima. Enquanto Rick, com sua alma de samaritano, tentava organizar doações de alimentos e produtos de higiene para as funcionárias afetadas e suas famílias – uma iniciativa que eu permiti, mais por pragmatismo de imagem do que por altruísmo –, eu mergulhava de cabeça na arquitetura da oportunidade.


O módulo de ‘Resposta à Sincronia’ tornou-se minha obsessão. Passei o sábado trancado em minha sala, com um quadro branco coberto de diagramas de fluxo, projeções de mercado e listas de contatos estratégicos. Precisávamos ser os primeiros, os mais eficientes. A janela de oportunidade para contratos emergenciais com o governo era estreita e brutalmente competitiva. Outras empresas de tecnologia, gigantes da consultoria, todos estariam farejando o mesmo sangue na água.


No domingo, convoquei uma reunião de emergência com a equipe de desenvolvimento liderada por Rick. Encontrei-os na sala de reuniões principal, os rostos marcados pelo cansaço e pela preocupação. A maioria dos homens estava ali, mas a ausência das mulheres era um lembrete visual constante da crise que nos impulsionava.


— Senhores — comecei, minha voz firme cortando a atmosfera pesada —, sei que todos estão exaustos e preocupados. Mas a NexusLog tem uma oportunidade única, não apenas de sobreviver a esta crise, mas de emergir dela como líder indiscutível em nosso setor. O módulo de Resposta à Sincronia é nossa prioridade absoluta. Rick, qual o status?


Rick ajeitou os óculos, os olhos vermelhos pela falta de sono. — Estamos avançando, Fábio. A equipe está trabalhando remotamente, os que podem. Conseguimos montar uma arquitetura básica para coletar e agregar dados de fontes públicas – notícias, redes sociais, relatórios de hospitais que ainda conseguem divulgar algo. Mas a qualidade dos dados é péssima, inconsistente. E a equipe… bem, eles estão no limite. Muitos têm esposas, mães, irmãs passando por isso. A concentração está difícil.


— Limite? — repliquei, meu tom endurecendo. — Rick, não existe ‘limite’ agora. Existe prazo. Existe concorrência. Existe a chance de fecharmos contratos que garantirão o futuro desta empresa e de todos que trabalham nela. Quero resultados, não desculpas. Se precisam de mais recursos, contratem. Se precisam de mais café, comprem a máquina mais cara do mercado. Mas eu quero aquele protótipo funcional na minha mesa até amanhã à noite. Entendido?


Vi um lampejo de ressentimento nos olhos de alguns desenvolvedores, mas foi Rick quem respondeu, a voz baixa, mas firme. — Entendido, Fábio. Faremos o possível. Mas preciso que você entenda o custo humano disso. Não são apenas linhas de código. São pessoas.


— Eu entendo perfeitamente, Rick — retruquei, levantando-me e caminhando até a janela, observando a avenida Berrini anormalmente vazia. — Entendo que, se não agirmos rápido, essas pessoas podem não ter um emprego para onde voltar quando a poeira baixar. Entendo que a melhor forma de ajudar, agora, é garantir que a NexusLog prospere. O resto é sentimentalismo que não podemos nos permitir.


Deixei a sala sob um silêncio tenso. Sabia que estava exigindo muito, talvez até sendo cruel. Mas a crueldade, às vezes, é apenas o nome que os fracos dão à eficiência. Voltei para minha sala e comecei a disparar e-mails e fazer ligações. Contatos no Ministério da Saúde, na Defesa Civil, em grandes redes varejistas e farmacêuticas. Usei todo meu networking, toda minha capacidade de persuasão.


Oferecia a promessa de ordem em meio ao caos. Nossa plataforma, dizia eu, poderia mapear em tempo real os focos de maior necessidade de absorventes, analgésicos, até mesmo de alimentos e água potável. Poderia otimizar as rotas de entrega dos poucos caminhões que ainda circulavam, driblando bloqueios e áreas de maior risco. Poderia prever, com base em dados demográficos e históricos (ainda que precários), onde o próximo ciclo da Sincronia atingiria com mais força, permitindo um planejamento mínimo.


As respostas foram, em sua maioria, positivas, embora cautelosas. O governo estava atordoado, reativo. As empresas, desesperadas para manter suas operações minimamente funcionais. Havia um vácuo de soluções, e eu estava determinado a preenchê-lo.


Na segunda-feira, o escritório parecia um cenário de filme pós-apocalíptico. Pouquíssimos funcionários presentes. As notícias eram cada vez piores: o sistema bancário operando com dificuldade, a bolsa de valores despencando, rumores de intervenção militar mais ampla, relatos de violência e saques se espalhando por bairros periféricos. As facções que Marcos mencionara para Eliane no Rio começavam a ter seus equivalentes em São Paulo – grupos religiosos fanáticos culpando as mulheres, milícias urbanas controlando territórios, e movimentos feministas radicais começando a organizar protestos e ações diretas.


Rick me procurou no meio da tarde, a expressão sombria. — Fábio, precisamos conversar.


— Estou ocupado, Rick. Tenho uma call com Brasília em dez minutos.


— É importante — ele insistiu, fechando a porta da minha sala. — A equipe está exausta. Dois desenvolvedores pediram demissão hoje. Disseram que não aguentam a pressão, a falta de sensibilidade…


— Falta de sensibilidade? — interrompi, incrédulo. — Estamos tentando salvar a empresa!


— Estamos tentando lucrar com uma tragédia! — ele explodiu, a voz embargada. — Você ouviu as notícias? Mulheres estão sendo atacadas na rua por esses grupos malucos, como ‘Os Guardiões da Moral’! Outras estão morrendo em casa por falta de atendimento! E nós estamos aqui, construindo um sistema para vender dados sobre o sofrimento delas!


— Nós estamos construindo um sistema para GERENCIAR o sofrimento, Rick! Para levar ajuda onde ela é mais necessária! O lucro é a consequência, não o objetivo principal!


— Não para você, Fábio. Para você, sempre foi o objetivo principal. Eu te conheço. Você vê números, gráficos, oportunidades. Eu vejo minha irmã chorando de dor no telefone, vejo nossas colegas arrasadas, vejo uma cidade inteira em pânico. Não podemos simplesmente… ignorar isso.


— Eu não estou ignorando! — rebati, levantando a voz. — Estou canalizando a situação para algo produtivo! O que você queria? Que eu fechasse a empresa e fosse distribuir sopa na Cracolândia? Isso não resolve nada! A solução é sistêmica, tecnológica, logística! E nós temos a chave!


Houve um longo silêncio. Rick me encarava, a decepção estampada em seu rosto. Era o olhar de quem via um amigo, um parceiro, transformar-se em algo que ele não reconhecia mais.


— O protótipo estará pronto até o fim do dia — disse ele finalmente, a voz desprovida de emoção. — Mas não conte comigo para apresentar isso a ninguém. Não consigo. Faça você mesmo suas vendas, Fábio.


Ele se virou e saiu, deixando-me sozinho com minhas planilhas, meus contatos e a sensação incômoda de que, talvez, pela primeira vez, o preço da oportunidade fosse mais alto do que eu imaginava. Mas afastei o pensamento. Fraqueza. Sentimentalismo. Em tempos de crise, só os fortes sobrevivem. E eu, Fábio Carvalho Sousa, sempre fui um sobrevivente. Mais do que isso: eu era um predador. E o caos era meu novo território de caça.


***


A saída de Rick da minha sala deixou um vácuo incômodo, não tanto pela ausência física, mas pelo peso da sua recusa silenciosa. Ele era a consciência da NexusLog, o lembrete constante de que havia mais no mundo do que algoritmos e margens de lucro. Sua objeção moral era uma pedra no meu sapato perfeitamente engraxado, mas não o suficiente para me desviar do caminho que eu havia traçado. Se ele não queria colher os louros — e os dividendos — da nossa criação em tempos de crise, problema dele. Eu não hesitaria.


O protótipo do módulo de ‘Resposta à Sincronia’ ficou pronto na noite de segunda-feira, como prometido. Um feito notável da equipe de desenvolvimento, apesar das circunstâncias e da minha pressão implacável. Era uma interface ainda rudimentar, mas funcional. Mapas interativos mostravam manchas de calor indicando áreas com maior concentração de relatos de sintomas (baseados em dados fragmentados de redes sociais e chamadas de emergência), cruzados com informações sobre estoque de farmácias (as poucas que conseguiam reportar) e status de hospitais. Um painel exibia gráficos de tendência, ainda imprecisos, mas que davam uma vaga ideia da progressão da crise.


Era o suficiente. Em tempos de desespero, um vislumbre de informação organizada vale ouro. E eu tinha a chave do cofre.


Na terça-feira, iniciei minha ofensiva comercial. Sem Rick ao meu lado para temperar meu discurso com jargões técnicos e éticos, eu estava livre para ser puramente Fábio Carvalho Sousa: direto, incisivo, focado no valor entregue e no retorno esperado. Minha primeira reunião virtual foi com um assessor especial do Ministério da Saúde, um burocrata de carreira chamado Dr. Aranha, cujo nome parecia condizer com a teia de influências que ele tecia em Brasília.


— Dr. Aranha, bom dia — comecei, minha imagem projetada na tela com um fundo virtual impecável do logo da NexusLog. — Agradeço a disponibilidade em meio a este cenário caótico. Sei que o tempo é escasso, então serei breve. A NexusLog desenvolveu, em regime de urgência, uma plataforma de inteligência de dados especificamente desenhada para auxiliar na gestão da crise da Sincronia.


Apresentei o protótipo, destacando os potenciais benefícios: alocação eficiente de recursos, identificação de áreas críticas, otimização logística, capacidade preditiva. Enfatizei a escalabilidade da solução e nossa capacidade de integração com sistemas governamentais existentes.


Dr. Aranha ouviu atentamente, os olhos pequenos e astutos por trás dos óculos de aro fino. — Interessante, Sr. Sousa. Muito interessante. Outras empresas nos procuraram com soluções similares, mas a sua parece… mais ágil. Qual seria o custo para implementação imediata em nível nacional?


A pergunta que eu esperava. Lancei o número, um valor estratosférico que incluía desenvolvimento, customização, licença de uso e suporte técnico por seis meses. Um número que faria Rick ter um ataque cardíaco, mas que, no contexto de um orçamento de emergência nacional, era quase uma pechincha pela promessa de controle.


— Um valor considerável, Sr. Sousa — comentou Aranha, sem demonstrar surpresa. — Precisaremos analisar a proposta detalhadamente. Mas confesso que a urgência nos pressiona. Envie a documentação completa. Entraremos em contato.


Desliguei a chamada com um sorriso satisfeito. A isca havia sido lançada. Seguiram-se outras reuniões: com a Defesa Civil, com grandes redes de farmácias, com distribuidores de alimentos. O discurso era adaptado a cada interlocutor, mas a essência era a mesma: eu tinha a ferramenta para navegar na tempestade, e ela tinha um preço.


Enquanto eu negociava nos corredores virtuais do poder e do mercado, São Paulo continuava a se contorcer sob o impacto da Sincronia. A cidade operava em marcha lenta. O transporte público era escasso e lotado nos poucos horários em que funcionava. Muitas empresas adotaram o home office para quem podia, mas setores essenciais sofriam com a falta de pessoal. A coleta de lixo tornou-se irregular, e o cheiro acre da decomposição começava a pairar em algumas ruas.


Os relatos de violência aumentavam. Os “Guardiões da Moral” ganhavam visibilidade na mídia sensacionalista, com atos de hostilidade contra mulheres que ousavam sair às ruas durante o que eles chamavam de “período de purgação”. Por outro lado, a “Irmandade Escarlate” respondia com pichações agressivas e confrontos localizados. A polarização, sempre latente na sociedade brasileira, encontrava na Sincronia um novo e perigoso catalisador.


No escritório da NexusLog, o clima era uma mistura de exaustão e apreensão. A equipe de desenvolvimento continuava trabalhando em ritmo frenético para aprimorar o módulo, mas a tensão era palpável. Rick mantinha uma distância fria, focando apenas nos aspectos técnicos, evitando qualquer discussão sobre a estratégia comercial. Nossa parceria, antes uma simbiose eficiente, agora parecia uma trégua armada.


— Fábio, precisamos definir a política de acesso aos dados — disse ele, abordando-me no corredor na quarta-feira. Sua voz era puramente profissional. — Quem terá acesso a quê? Quais níveis de segurança? Precisamos garantir a privacidade, especialmente com dados tão sensíveis.


— A política é simples, Rick — respondi, no mesmo tom. — O cliente que pagar mais terá acesso ao pacote mais completo. Governo Federal terá acesso total, claro. Grandes corporações, acesso segmentado conforme o contrato. Privacidade é um luxo que poucos podem bancar em tempos de guerra. E, acredite, estamos em guerra.


Ele me lançou um olhar que misturava reprovação e cansaço. — Guerra contra quem, Fábio? Contra a biologia? Contra as mulheres? Ou contra nossa própria consciência?


— Contra o caos, Rick. Contra a ineficiência. Contra a falência. Escolha seu inimigo. Eu já escolhi o meu: a irrelevância. E não serei irrelevante.


Ele balançou a cabeça e se afastou, sem dizer mais nada. Aquele abismo entre nós parecia se alargar a cada dia. Parte de mim lamentava a perda daquela camaradagem inicial, daquele entusiasmo compartilhado que nos levou a fundar a NexusLog. Mas a outra parte, a parte dominante, sabia que a evolução exigia sacrifícios. E Rick, com seu idealismo fora de hora, estava se tornando um peso morto.


Na quinta-feira, uma semana após o Dia Zero, recebi a ligação que esperava. Era do gabinete do Senador Lacerda, um velho conhecido dos tempos em que eu transitava pelos círculos políticos em busca de investimento anjo. Um político pragmático, com faro para oportunidades e pouca preocupação com escrúpulos.


— Fábio, meu caro! — a voz untuosa do senador soou no meu ouvido. — Vi sua proposta que chegou ao Ministério. Arrojada, como sempre. O presidente está… impressionado. Mas preocupado com os custos em um momento de cofres vazios.


— Senador, a questão não é o custo, mas o custo da inação — argumentei, entrando no jogo. — Quanto vale para o governo ter uma ferramenta que pode evitar o colapso total da distribuição de suprimentos essenciais? Quanto vale a percepção de controle em meio ao pânico?


— Exatamente, meu caro, exatamente. Percepção é tudo. E é por isso que tenho uma contraproposta. Um contrato inicial, mais enxuto, focado no monitoramento das capitais. Um piloto. Se funcionar, expandimos. E, claro, precisaríamos de uma… contrapartida. Uma demonstração de boa vontade da NexusLog para com os esforços do governo neste momento difícil.


Entendi imediatamente. A “contrapartida”. Aquele eufemismo para a comissão não oficial, a lubrificação necessária para que as engrenagens do poder girassem a meu favor. Era o preço de fazer negócios em Brasília. Um preço que eu estava disposto a pagar.


— Senador, a NexusLog está totalmente comprometida em apoiar o país. Faremos o que for necessário. Tenho certeza que podemos chegar a um acordo que beneficie a todos.


— Excelente, Fábio. Excelente. Gosto de homens que entendem a linguagem da cooperação. Meu chefe de gabinete entrará em contato para acertar os… detalhes técnicos.


Desliguei o telefone com um misto de euforia e repulsa. Estava conseguindo. O primeiro grande contrato estava ao meu alcance. Mas o caminho para o topo, como sempre, passava por pântanos morais que deixariam Rick horrorizado. Era o jogo. E eu estava jogando para ganhar. O caos lá fora podia estar engolindo o mundo, mas aqui dentro, na minha torre de vidro e dados, eu estava construindo meu império sobre as ruínas.


***


Os “detalhes técnicos” mencionados pelo Senador Lacerda foram acertados na sexta-feira seguinte, exatamente uma semana após o Dia Zero. A conversa com o chefe de gabinete foi um balé de eufemismos e subentendidos, uma dança que eu conhecia bem. Nenhuma palavra explícita sobre propina, claro. Apenas a necessidade de contratar uma consultoria “parceira”, indicada por eles, para “facilitar a integração” do nosso sistema com as plataformas governamentais. Uma consultoria fantasma, obviamente, cuja fatura superfaturada seria o veículo para a “contrapartida”. Engoli em seco, mas assenti virtualmente. Era o pedágio para entrar na via expressa do poder.


Com os “detalhes” resolvidos, o contrato piloto foi assinado digitalmente em tempo recorde. A NexusLog estava oficialmente a serviço do Governo Federal na gestão da crise da Sincronia, começando pelas principais capitais. A notícia correu rapidamente pelos poucos canais de comunicação que ainda funcionavam com alguma normalidade. Fui convidado para uma entrevista coletiva virtual, ao lado de um general e de um representante do Ministério da Saúde (Dr. Aranha, convenientemente, estava “em outra reunião urgente”).


Diante das câmeras, vesti minha melhor máscara de empresário responsável e inovador. Falei sobre tecnologia a serviço da vida, sobre a capacidade brasileira de encontrar soluções em meio à adversidade, sobre a parceria público-privada como motor da reconstrução. Mencionei o esforço hercúleo da minha equipe, omitindo as demissões e a exaustão. Pintei um quadro de eficiência e esperança, um contraponto à narrativa de caos que dominava as manchetes.


— A NexusLog não está apenas oferecendo um software — declarei, olhando diretamente para a lente da câmera —, estamos oferecendo inteligência, capacidade de resposta, a possibilidade de levar ajuda onde ela é mais necessária, de forma rápida e eficaz. Estamos comprometidos em usar nossa expertise para ajudar o Brasil a superar este desafio sem precedentes.


As palavras soavam bem, calculadamente empáticas. Por trás delas, porém, minha mente já processava os próximos passos: a expansão do contrato, a coleta massiva de dados que poderiam ser monetizados de outras formas, a consolidação da NexusLog como uma peça indispensável no novo tabuleiro geopolítico que a Sincronia estava criando.


No escritório, a notícia do contrato foi recebida com um misto de alívio e resignação pela equipe remanescente. Era a garantia de que seus empregos estavam seguros, pelo menos por enquanto. Mas o entusiasmo era nulo. Vi alguns trocando olhares preocupados, outros apenas baixando a cabeça e voltando ao trabalho, como autômatos. A cultura vibrante e colaborativa da NexusLog havia se dissipado, substituída por uma atmosfera de sobrevivência silenciosa.


Rick me parabenizou formalmente, um aperto de mão rápido e frio. — Bom trabalho, Fábio. Conseguiu o que queria.


NÓS conseguimos, Rick — corrigi. — Isso garante nosso futuro.


— Garante o SEU futuro, talvez — ele retrucou, baixo. — O meu… ainda estou tentando entender qual é.


Ele se afastou antes que eu pudesse responder. Aquele abismo entre nós era agora um cânion intransponível. Ele representava um passado que eu precisava deixar para trás se quisesse navegar nas águas turbulentas do presente.


Naquela noite de sexta-feira, decidi dirigir de volta para casa em vez de usar o motorista da empresa. Queria ver a cidade com meus próprios olhos, sentir o pulso da nova realidade. São Paulo estava transformada. As ruas, mesmo as grandes avenidas, tinham um fluxo de carros reduzido. Muitos estabelecimentos comerciais estavam fechados, com grades abaixadas ou tapumes nas vitrines. Havia uma presença militar ostensiva em pontos estratégicos, soldados com fuzis patrulhando esquinas, criando uma sensação de ocupação.


Passei por uma farmácia com uma fila imensa do lado de fora, pessoas com máscaras e expressões cansadas esperando por analgésicos ou absorventes. Vi pichações nos muros: algumas com símbolos da Irmandade Escarlate, outras com mensagens de ódio dos Guardiões da Moral. A tensão social era uma névoa espessa pairando sobre a cidade.


Mas também vi sinais de adaptação. Pequenos grupos de vizinhos organizando redes de apoio, compartilhando informações e suprimentos. Entregadores de bicicleta, agora considerados trabalhadores essenciais, ziguezagueando pelo trânsito escasso. A vida, mesmo golpeada, recusava-se a parar completamente.


Para mim, aquela paisagem não era de desolação, mas de reconfiguração. O mundo antigo estava ruindo, e um novo estava sendo construído sobre seus escombros. E eu, com minha tecnologia, meus contatos e minha falta de escrúpulos, estava posicionado para ser um dos arquitetos dessa nova era. A Sincronia, para a maioria, era uma maldição. Para mim, era a maior alavanca de negócios da história.


Cheguei ao meu apartamento. O silêncio era quase absoluto, quebrado apenas pelo zumbido distante da cidade ferida. Servi-me de um uísque caro, sentei-me na poltrona de couro e contemplei as luzes esparsas através da janela panorâmica. A primeira semana havia terminado. O contrato estava garantido. A NexusLog estava no jogo. Rick era um problema a ser administrado, mas não uma ameaça real.


Abri meu tablet e comecei a analisar os dados preliminares que o módulo já coletava. Tendências de consumo, movimentação populacional, gargalos logísticos. Havia tanto a explorar, tanto a otimizar, tanto a lucrar. A Sincronia não era apenas um evento mensal, como os cientistas haviam confirmado. Era um novo paradigma econômico e social. E eu estava pronto para decifrá-lo e dominá-lo.


A sensação incômoda que a conversa com Rick havia deixado mais cedo dissipou-se sob a luz fria dos dados e da estratégia. Consciência era um luxo. Em tempos de caos, a única moral que importava era a da sobrevivência e do sucesso. E eu estava vencendo. A Primeira Parte desta nova história estava apenas começando, e eu seria um dos seus protagonistas mais implacáveis. Oportunidades no caos, de fato. E eu as agarraria com unhas e dentes.


 
 
 

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